Somos um círculo, dentro de um círculo… – (Sacerdotisa)

 

 

“Somos um  círculo, dentro de um círculo. Somos um infinito, dentro de outro infinito”

Tate tinha nove anos, e era uma menina diferente, olhos antigos – diziam – e todo verão viajava para o sul do estado, para passar férias com a avó.

Rubi era uma avó alegre, enérgica, cheia de vitalidade. Cultivava girassóis, rosas, margaridas e aos olhos da menina era uma verdadeira rainha, sábia e generosa.

Ensinava algo novo à neta todos os dias, dizendo coisas que esta ainda não compreendia muito bem, mas que tocavam sua alma e seu coração.

Normalmente a menina passava os dias catando conchinhas na praia, lendo, brincando com Tobi, o cachorro que terminara sendo adotado pela avó, a pedido da menina.

Aproveitava o sol, estendia os braços para ele e sentia seu calor e energia.

Eram dias bons, dias verdes e promissores.

Naquela tarde inesquecível, que marcou sua vida para sempre, tinham comparecido a um importante ritual.

Sabia que a querida avozinha possuía poderes, ouvia comentários na família.

Pegava-se observando a avó, sempre vestida com roupas alegres, bonitas.

Usava dessa vez um vestido vermelho estampado, um contraste bonito com a pele bronzeada.

Apesar da pouca idade, Tate reparou que todos na reunião utilizavam palavras mágicas: eram as invocações e evocações presentes no ritual.

Ela achava muito lindo. Sabia que estava aprendendo tudo o que sua avó aprendera, um dia, com a avó dela.

Isso enchia a menina de orgulho, prestava ainda mais atenção a cada detalhe.

Dançavam muito, comiam e ofereciam frutas uns aos outros, numa grande demonstração de união, a chave para seus propósitos.

No meio do pátio havia uma grande fogueira. A menina arregalava os olhos de espanto, pois suas chamas chegavam a ultrapassar o telhado da casa, em altura.

Era o dia 21 de dezembro, estavam celebrando Litha, que é o dia em que os raios do sol ficam mais tempo banhando a terra, os campos, as flores.

Entoavam cânticos, deixando a menina encantada:

Fogo que abrasa, fogo que abraça

uno agora meu mundo ao teu!

Fogo que invade, nunca é tarde

Teu tempo é o sempre!

Fogo que aflora, essa é tua hora

Fogo sem fim, queima os grilhões em mim

Agora!”

A menina dançava em volta da fogueira, quando ouviu uma voz sussurrar seu nome.

“Tate…”, primeiro, bem baixinho. Em seguida, com força, a voz de trovão ecoou em seus ouvidos:

“Tate, venha até aqui! Meu nome é Anala.”

Correu os olhos em volta e não viu ninguém chamando por ela. Sentiu-se fortemente atraída pela fogueira, pelas chamas serpenteantes que pareciam longos braços sedutores, dançando sinuosamente.

Parou e observou por longos minutos aquele espetáculo belo e poderoso.

Sentiu-se parte do fogo, eram a mesma essência, assim como todos os seus ancestrais, ela carregava o dom, era o que diziam.

Anala emergiu da fogueira, era imensa, olhos de fogobraços que pareciam serpentes.

Olhou profundamente nos olhos da menina Tate, que entendeu a mensagem de incontáveis tempos contada em milésimos de segundo pela figura da salamandra, que tomava forma e apresentava-se à ela, em toda sua força e dignidade.

Tate seria, como a avó, uma sacerdotisa do fogo.

“Tate!”. Agora era a avó, chamando para irem embora.

A menina olhou outra vez em direção à fogueira, mas estava tudo normal. Nem sinal de Anala, de seus braços de serpente flamígera e seus olhos de explosão. Nada.

As férias terminaram, Tate voltou para sua casa. O tempo passou, Tate cresceu, voltou ainda muitas vezes à casa da avó Rubi.

Continuou aprendendo muito sobre o que suas ancestrais haviam passado de boca em boca, até chegar na avó, e agora até ela.

Num dia triste recebeu a notícia de que a avó Rubi havia partido para sempre.

A mãe não gostava daqueles assuntos, não falava nada sobre, mas no coração sabia que Tate era destinada, era uma sacerdotisa do fogo, herança de família.

Tate seguiu seu caminho. Saiu de sua cidade, fez faculdade, namorou, casou e teve filhos.

A tarde de festa na casa da avó era uma lembrança estranha e querida, quase um sonho.

Tate  continuou cumprindo sua missão de sacerdotisa.

Certo dia estava na cozinha de casa, entre panelas, temperos, cheiros e calores – como amava aquele lugar! – quando sentiu a presença de Anala, que confidenciou-lhe algo que ela deveria, por ora, guardar no coração.

Cozinhava. O fogão a lenha era seu passatempo, inventava pratos e gostava de brincar de inventar poções mágicas, nessas horas lembrava da avó, com carinho e saudade.

Muitas primaveras e verões passaram-se, e foi durante um inverno rigoroso que Tate notou que estava realmente doente, enfraquecida.

A antes menina de primaveras tinha agora os cabelos brancos e a alma cansada, como se sentisse saudade de casa, de seu verdadeiro lar.

Era ela agora a avó, e embaixo da mesa da cozinha de sua casa brincava sua netinha, Aponi.

Olhou para a neta e viu a si mesma, tantos anos atrás, numa tarde de Litha, como aquela.

O relógio mostrava que era meio dia, era “a hora”.

Dirigiu-se com a menina à festa, que nunca deixara de presidir, sacerdotisa do fogo que era.

Usava um belo vestido vermelho com a barra rendada, como Rubi, há tantos anos. Sentia que algo muito importante estava por acontecer. Sabia.

Palmas, sinos, gritos alegres marcavam o início da cerimônia.

Tate acendeu a fogueira, os fortes braços do fogo lançando aos céus os pedidos e agradecimentos mais pungentes, que seriam respondidos energicamente.

A anciã, agora cheia de vitalidade, bailava entre as sinuosas ondas de luz e calor produzidas por Anala, que crescia mais e mais, cumpridora de sua missão.

Hipnotizada ante o ritual, a pequena Aponi observa, enternecida e já consciente de sua missão.

Seria a próxima sacerdotisa do Fogo, herança de Tate, sua amada avozinha.

Na fogueira de Litha, Tate estende as mãos de anciã para a jovem, dando continuidade ao eterno círculo de força e poder.

Fagulhas de amor emanavam de suas mãos, trazendo energiacura, e renovação.

Aquele foi o último dia de Tate sobre a terra. Já era tempo de retornar ao ventre de onde tudo vem e para onde tudo vai, infinitamente.

Aponi aprendeu a reconhecer Anala, como sua avó fizera um dia, na casa de sua tataravó Rubi.

E tempos depois, missão cumprida, Aponi entregou a força sábia e poderosa de Anala à sua própria neta.

A magia do fogo, a força vinda do amor e seu grande poder formavam o círculo, dentro de outro círculo, por todo o sempre.

Fim.

16 comentários em “Somos um círculo, dentro de um círculo… – (Sacerdotisa)

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  1. É interessante ver a ligação acontecer entre avós e netas, pulando um ciclo – o das filhas. Talvez porque haja, nesse ponto, a ligação entre a sabedoria anciã e a natureza inocente das crianças. Um elo deveras intrigante. Um conto de passagens bonitas e alegres. O fim de um ciclo não é mostrado como uma tristeza. Esse é um aspecto bastante positivo.

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  2. Confesso que fiquei empacada neste conto, por isso a demora em comentar. Perguntava eu – “Qual a finalidade de ser uma sacerdotisa do fogo? Apenas fazer rituais em adoração ao fogo?”

    Li e reli e acabei me convencendo. Adoração ao fogo é bom, pois é o elemento ao qual elas pertencem.

    Parabéns pelo conto.

    Curtido por 3 pessoas

  3. Gostei. O conceito de ancestralidade e da transmissão de dons e conhecimento através da oralidade e da herança genética me encantam. E a passagem do tempo e a certeza de que todos temos nosso tempo e missão também.
    Beijos

    Curtido por 3 pessoas

  4. Olá,

    Um conto narrado em um ciclo, um dom, uma missão passada de geração para geração. O Foco maior ficou nessa passagem de ” bastão” então não houve uma ligação direta entre os personagens e o leitor, pelo menos não pra mim. Ficou algo como uma passagem mesmo. Algumas explicações teriam deixado o texto mais consistente, como já disseram, o que era ser uma sacerdotisa do fogo.
    Um bom conto, com passagens bonitas num ritmo ditado por círculos.

    Parabéns.

    Curtido por 3 pessoas

  5. O conto revela um ciclo hereditário de sacerdotisas do fogo. De avó para neta, a missão é passada, através de rituais e conhecimentos sobre o elemental do fogo – a salamandra. Há uma espécie de batismo das meninas que anos depois se tornam responsáveis pelo círculo de fogo. Um círculo dentro do outro, um ciclo que nunca termina, uma aliança entre o feminino e o sagrado. Parabéns pelo conto!

    Curtido por 3 pessoas

  6. Querida Contista,
    Tudo bem?

    Estou feliz e emocionada por partilhar mais uma dinâmica com vocês!

    Vamos ao conto.

    Minha relação com minhas avós foi extremamente forte, espero ter força o suficiente para ser o que elas foram para mim, agora que tenho meus próprios netos, minha neta. Talvez por isso este conto tenha me cativado tanto. Há algo de incrivelmente profundo no laço avó e neta e, aqui, a escritora mostra isso com muita beleza.

    Também preciso falar do título, que fecha (ou abre) o conto em um todo perfeito com o desfecho. Um círculo dentro de outro, dentro de outro, dentro de outro, eternamente, infinitamente, como o Oroboros que come a si mesmo em um ciclo, e, de certa forma, também se pare e se recria.

    Parabéns, Contista.

    Desejo que muitos mais textos maravilhosos como este apareçam em nosso blog por muitos e mutos círculos.

    Beijos
    Paula Giannini

    Curtido por 3 pessoas

  7. A conexão entre avós e netas é um tema recorrente para mim como narradora, tenho uma pasta onde coleciono textos com essa pegada. Por isso achei bem interessante no seu conto a transmissão do poder de sacerdotisa do fogo saltar uma geração. O enfoque da narrativa está concentrado na transição dos poderes, daí que me senti um pouco orfã de mais detalhes do ofício de sacerdotisa, sobretudo na trajetória de Tate. Embora o texto fale da passagem do tempo, ideia dos ciclos que se renovam traz leveza ao conto. Parabéns pelo trabalho!

    Curtido por 3 pessoas

  8. Olá, Sacerdotisa! Seu conto é singelo e doce, a herança que os avós passam para os netos são muito importantes para a perpetuação de quem somos. Um círculo dentro de outro círculo, e assim sucessivamente. O conto conta rapidamente a história de três gerações de sacerdotisas do fogo, não tem nenhum conflito, nada marcante, mas mostra claramente o chamado e a missão dessas mulheres. A descrição do encontro de Tate com Anala ficou perfeita. Parabéns!

    Curtido por 3 pessoas

  9. O ciclo da vida, a tradição e as crenças repassadas de geração em geração, através do fogo. Título muito apropriado. Identifiquei-me muito com esta história: meu apelido dado por minhas irmãs (5) é Tate, morei por muitos anos (infância e adolescência) com minha avó e minha pedra predileta é o rubi. O conto me cativou.

    Gostei muito do estilo e da narrativa, sólidos e tecnicamente ajustados ao Desafio. Os diálogos e as cenas são críveis, uma mescla de realidade e fantasia. A evolução da história também me pareceu harmônica, saltando de momentos em momentos com transição fácil de acompanhar. A ideia está muito bem desenvolvida, envolvente — uma saga.

    Parabéns! Sucesso, é o que lhe desejo. Beijos. 💓💓

    Curtido por 2 pessoas

  10. O conto fala-nos do ciclo da vida, da passagem do tempo e do ofício da sacerdotisa do fogo. Além das agonias da menina que vê na figura da avó, o conhecimento do mistério e, depois, vê-se a si mesmo como avó a passar o conhecimento adquirido à sua própria neta, é o entrelaçar de vidas. Confesso que senti falta de algum conflito e de alguma informação maior sobre o ofício da sacerdotisa, já que é algo que permeia as gerações da família, mas o texto está cativante e bem escrito. Parabéns!

    Curtido por 2 pessoas

  11. Ao meu ver, a relação neta/ avó é a mais forte que possa existir. Vivi isto com minha avó e hoje vejo se repetir com minha filha e minha mãe. Um ciclo que se renova, ensinamentos e saberes renascidos. Um conto leve, gostoso de ler.
    “Já era tempo de retornar ao ventre de onde tudo vem e para onde tudo vai, infinitamente.” prefiro pensar que um dia tudo acabará ‘para sempre’, sem renovação, pelo menos para mim rsrsrs.
    Abraços ❤

    Curtido por 2 pessoas

  12. Que maravilha de conto! É um conto fantástico? sim, é sobre um dos elementais? sim, é algo mais que isso? muito mais, é algo diferente disso? completamente.
    É a magia da própria vida que se apresenta aqui na forma de fogo que é talvez, entre os elementais, o que melhor representa energia – energia, isso que nos move. Nesse sentido, é absolutamente concreto e ilustrativo, contando-nos sumariamente a vida das protagonistas, “Tate seguiu seu caminho. Saiu de sua cidade, fez faculdade, namorou, casou e teve filhos.”, comum como fora para a época a vida da avó e como a da sua própria neta.
    Somos isso, sim, um círculo dentro de um círculo, dentro de um círculo, matrioskas, sacerdotisas do amor, dos laços que nos unem dentro dos ciclos do tempo. Sempre.
    Adorei. Abraços.

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  13. Querida Contista!

    Obrigada por me propiciar mais uma leitura de um conto teu!
    Esse desafio foi ótimo, né!? Adentramos em um mundo verdadeiramente fantástico!

    Sobre o teu conto, ele narra pertencimento. Eu gostei muito. E o título tem muita relação com a ideia central. Ponto pra ti.
    Particularmente, sou afeiçoada a história de bruxas e rituais, já li bastante sobre isso. E acho que o elemento fogo é o que mais combina nesse ambiente. Tua história ficou bem bacana.

    Interessante que, quando menina, Tate recebeu a notícia da morte da avó, como se ela, conforme o texto, houvesse “partido para sempre”, mas acho que Tate um dia veio a perceber que isso não se aplica às bruxas…

    Parabéns!

    Grande beijo,
    Sabrina

    Curtido por 1 pessoa

  14. Começo e recomeço, em um ciclo sem fim. É um texto que conforta, que traz boas vibrações, dá pra sentir a atmosfera do elemental no desenvolvimento. Gostaria de mais falas das personagens, a mim me ajudam a ter uma proximidade maior com as palavras deles, Tate não se mostra como poderia, ou deveria. Mas gostei do “clima” empregado ao se contar essa história. Parabéns!

    Curtido por 1 pessoa

  15. Olá! Muito boa esta ideia dos ciclos e da passagem do dom de vó para neta..
    Fiquei imaginando as personagens como num filme com fundo musical e tudo.. hehe
    Parabéns, Contista

    Curtido por 1 pessoa

  16. Conto interessante sobre a tradição sacerdotal que determina os destinos pulando sempre uma geração. O conto não traz conflitos, mas harmonia destas mulheres com o fogo, aceitando seus destinos, através da sabedoria vinda de uma iluminação das mulheres escolhidas, quando ainda crianças. O conto é muito imagético, visualizamos as cenas com facilidade. Parabéns pelo trabalho, abraços.

    Curtido por 1 pessoa

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