Drink de Flores ou 8+1 – Paula Giannini

Ingredientes
5 cl de Gin – 3 cl de xarope de rosas – 1,5 cl de Triple Sec. –
2 cl de suco de limão – Gelo

Ela dormia tarde. Gostava de ter uns minutos para si. Mesmo exausta, mesmo após o dia longo e cheio de trabalho. Abria a janela e subia pelas escadas externas do prédio até a cobertura. Quase iguais às que vira em filmes durante toda a infância. Quase iguais às que um dia sonhara ter, em um prédio do outro lado do mundo, em um país distante e cheio de oportunidades. De trabalho. E já lá em cima, no topo do mundo, como gostava de dizer, fumava um cigarro apreciando a cidade envolta em névoa. O último do dia. Sem pressa. E brincava com a fumaça, fazendo bolinhas no ar, enquanto via vésper desaparecer, ofuscada pela luz do sol.
Ele acordava cedo. Gostava de ter um tempinho só seu antes de sair. Respirar fundo como aprendera quando criança. E tomar seu chá, bem quente. E com cuidado para não queimar os lábios, assoprava devagar, sem se importar com o vapor que, subindo, embaçava seus óculos. Gostava do efeito de refração da luz nas gotículas que se formavam na lente. Adorava o ar desse país. A luz. Fascinara-se logo no primeiro dia, quando chegara para nunca mais partir. Talvez por isso tivesse o hábito de se deixar assim, quase em meditação. E sem pressa alguma começava o seu dia, observando vésper desaparecer, ofuscada lentamente pela luz daquele sol.

Modo de Preparo

Bata todos os ingredientes em coqueteleira.

Era seu aniversário. 27 anos. Comemorava com o pequeno bolo. Delicado mimo que comprara na confeitaria da esquina. A velinha, única, seria soprada com a fumaça do cigarro. Uma brincadeira que criara anos atrás. Puro revide com a implicância da mãe com seu hábito de inveterada fumante. Pura brincadeira com o índice de poluição da cidade, mundialmente conhecido, que deixava a mãe igualmente apavorada nos primeiros anos. Tanto fazia. Hoje isso lhe parecia algo distante. Doce até. Era seu último dia e queria aproveitá-lo todo, ainda que sozinha.
Para Ele, esse era um dia especial. O dia em que nascera. E embora não fosse muito de comemorações, sentia-se bem-disposto. A vida é algo para se celebrar, era o que estava escrito no papelzinho enrolado dentro do biscoito da sorte que acabara de dividir em dois. Sabia que aqueles eram os seus últimos momentos e queria aproveitá-los a seu modo. Só e tranquilamente.
Marina ainda tinha confeito nos dedos quando começou a arrumar a mochila. Queria levar apenas o essencial. Nada de passar pela balança do check in. Nada de esperar durante minutos que se tornavam horas, enquanto a esteira de bagagem girava em movimento perpétuo. Ou ao menos era essa a impressão que tinha em aeroportos. Duas peças de cada uma das roupas que julgava necessárias para os primeiros dias. O resto, doaria ao bazar da igreja para ocidentais que frequentara durante todos esses anos. Vida nova exige roupas novas, foi o que disse ao se despedir do pároco. Não tinha mais ninguém para quem dar tudo aquilo e o que importava estava com ela. As passagens, o cartão do banco com a razoável soma economizada, seu exemplar de “As Viagens de Guliver”, versão em português e o caule da Rosa seca, guardada dentro dele, os espinhos intactos eram a recordação do único amor que tivera por ali e pela vida.
Iago forçou a trava da mala de couro. Estava levando pouca coisa, ainda assim, precisaria sentar sobre ela a fim de conseguir que se fechasse. Bagagem de mão. Gostava de praticidade, de ter as coisas sempre a seu alcance.  Até Pequim seriam muitas horas de voo. Algumas escalas. Mudanças de aeronave nas quais ter a bagagem a seu lado podia ser de providencial ajuda. Levava tudo o quanto poderia precisar. Não mais. Duas mudas de cada peça das roupas que costumava usar, sua xícara preferida e um livro de Swift, versão em mandarim ilustrada com bico de pena, uma delicadeza marcada com o papelzinho do biscoito na página 27. Aquela que tinha o desenho de um cavalo sorrindo. No potinho de porcelana, pétalas de rosas. Mistura desenvolvida por ele há muito tempo. Um blend de cores e sabores que lhe faziam lembrar daquele rápido caso de amor. O único que tivera um dia e pela vida.
Olhou o horário no celular. Melhor pegar logo o metrô. Queria estar no aeroporto com bastante antecedência. Gostava assim. Nada de sobressaltos, nada de ficar parada na caótica fila. Acostumara-se ao ritmo da cidade. Ali tudo era superlativo. Os prédios, as multidões, as filas. Tudo gigantesco. Queria chegar cedo, ter tempo para um chá. Hábito local que aprendera a apreciar. Hoje, quem sabe, talvez pedisse um drink. A ideia era aproveitar tudo. Até o fim. Até a última gota. O último minuto. Aquele país que a recebera de braços abertos, era o mesmo que agora mudara suas políticas de restrição aos estrangeiros. Tanto fazia. Não queria chorar. Olhando para trás, via que já era hora de voar com as próprias asas. Fora feliz por ali. Muito. Ou quase.
Checou o relógio. Tinha tempo de sobra. O taxi logo estaria ali. Sorriu lembrando de sua chegada. Em outros tempos. Outra vida. Especialista em chás, a abertura do governo veio bem a calhar. Seu mundo estava em crise. Na época quase ninguém conseguia sair de lá. Nada era fácil. Hoje não. Hoje tudo era diferente e o país que o recebera como a árvore que acolhe cada pássaro em seus galhos, estava repleto de refugiados do mundo todo. Não. Ele jamais fora um refugiado. Imigrante sim. Era assim que se dizia na época.O fato é que precisava se reencontrar com suas raízes. Mas antes, queria aproveitar os últimos momentos de Brasil. Até o último raio de sol. A última palavra daquela língua que amava. A verdade é que ali, fora quase, quase completamente feliz.

Modo de Servir

O drink é um aperitivo e deve ser servido em taça dry

 

Agora estava preocupada. Seu voo atrasara. E muito. Não podia sequer pensar na possibilidade de perder o horário da escala. Precisaria trocar de aeronave e não tinha ideia do que fazer, caso o tempo não fosse o suficiente. Sua língua enrolava. Com ela era sempre assim. Sempre que algo dava errado, sempre que ficava tensa. Preocupada. Sempre. Uma confusão terrível lhe acometia a ponto de não saber sequer como dizer o sim e o não naquela língua que se esmerara tanto para aprender. Não sabia o que dizer e as palavras escapavam, confusas e disformes, formando bolos em sua boca. Precisava se concentrar. O drink ficaria para outra hora. Marina estava nervosa.
Chegou ao aeroporto esbaforido. Pedir ao taxista que aproveitasse o caminho, fora uma ideia tola, um grande erro seu naquele dia. O acidente em uma das vias de acesso deixara tudo parado. Tinha 18 minutos para se apresentar ao balcão da companhia. Queria chegar ao aeroporto como planejado, com duas horas de antecedência. Queria apreciar a paisagem. Os parques. Os altos edifícios daquela que se tornara uma das maiores cidades do mundo. Se despedir com calma. Não que tivesse alguém em particular para fazer isso. Não. Pensara apenas em chegar com calma e sentar no bar da sala de embarque. Pedir uma água quente. Tomar sua infusão de flores. Mas agora tudo o que conseguia pensar era no imenso caminho que precisaria percorrer a pé até o guichê. O suor escorrendo junto aos segundos, seu joelho que há tempos não cooperava. Iago estava tenso.
Sentou-se em uma das centenas de cadeiras que se espalhavam pelo saguão. Há anos não perdia as palavras dessa forma. A última vez fora quando a mãe morreu. Na época. os voos para o Brasil ainda eram poucos. Lembrava do quanto chorara, tentando compreender a solução da atendente para que conseguisse chegar a tempo. E agora, com a passagem na mão e a mochila grudada ao corpo, sentia-se novamente aquela menina desorientada. A mesma que abandonara tudo para se aventurar em um país cuja cultura nada tinha de parecida com a sua, a mesma que gostava de aventuras, mas morrida de medo de escuro, de insetos, aquela que sonhava com um príncipe encantado de olhinhos puxados e a língua complicada.
O check in estava fechando. A aeronave, ainda em solo, abriu uma exceção para o passageiro em situação de atraso. Definitivamente, nada saíra como planejado. Com sorte chegaria à escala a tempo de embarcar rumo a Pequim. Seu joelho doía terrivelmente. Sinal de que o acontecimento o havia tirado do sério. Com ele era sempre assim. A dor era um sinal de que sua calma se havia abalado. Não estava certo se, a bordo, haveria água quente para o tão sonhado chá de despedida, mas precisaria se acalmar de alguma forma. Entrou no avião lotado, observado por centenas de rostos. E deu-se ao luxo de olhar para cada um. Pessoas ansiosas para a decolagem, encarando-o com um constrangedor ar de curiosidade. Sorriu. Sentia-se como um menino sem graça.
Vista de cima, Madri parecia esplendorosa. Custou a entender o aviso de atar cintos. Dormira durante todo o trajeto de Pequim até ali. A voz da aeromoça soava distante, quase como que vinda das nuvens que agora avistava abaixo de si, deixando-a entrever a cidade. O sol já se punha ao longe. Não precisava checar o horário para saber que perdera o voo para São Paulo. Tudo o que queria agora era descer. Esticar as pernas e torcer para que seu portunhol fosse compreendido por ali. O mandarim já ficara para trás.
Gostava do aeroporto internacional de Madri. Aquele povo era quase tão caloroso quanto o brasileiro. Quase. Menos mal, finalmente teria tempo para a tal infusão quente e reconfortante. Iago ainda se sentia como aquele menino que embarcou no Brasil. Ainda era o mesmo. Desde sempre. Com seu medo de escuro, a paixão por insetos e a esperança de encontrar alguém com quem partilhar toda a sua vida. Talvez uma moça com olhinhos ocidentais. Olhos de gato, como o pai costumava dizer com certo ar de desprezo.

Modo de Enfeitar

Com a ajuda de um descascador remova a casca de fora da laranja, sem a parte branca. (Zest)

Faça desenhos à gosto com auxílio de estilete e encaixe, decorando sua taça com o zest.

E desembarcaram ambos exatamente no mesmo horário.

E seus olhares se cruzaram, cúmplices, passando as bagagens de mão na esteira. Ambos indo e vindo, fazendo soar o detector de metais, muitas mais vezes do que os objetos que poderiam ter nos bolsos ou na roupa.

E sentaram-se lado a lado. Ela retirando os sapatinhos protetores dos pés. Ele, calçando os próprios mocassins.

E sorriram um para o outro quando se reconheceram já no café do saguão, sentando-se lado a lado no mesmo balcão.

Ela gostava de carne.
     E ele de peixe.
Ela adorava o modo como os espanhóis falavam, comiam, se vestiam.
     Ele também.
Ela sentia falta de um amor. Alguém para compartilhar a vida.
     E ele sorria, pois temia dizer o mesmo.
Ambos falavam mandarim.
     E português.
E compartilhavam uma antiga paixão pelo gosto do chá.
     E das frutas.
E da vida.
    Que para ambos, em uníssono, era algo       para se celebrar.

E foram ambos igualmente surpreendidos quando a garçonete depositou a bebida sobre o balcão. Uma bela taça, decorada com laranja em formato de pétalas de flor, em uma mistura de sabor único, suave e sedutor.  No passaporte, o detalhe. Era 9 de fevereiro de 2016. Aniversário de ambos. Uma dessas coincidências raras e que precisaram provar um para o outro, trocando o documento entre si em meio a gargalhadas.

O café presenteava a todos por seus cumpleanos com o seu Drink de Rosas.

Marina sorria.
     Iago também.

Eram quase felizes ali. Naquele exato e único instante de delicadeza em que brindaram juntos, encostando as taças em uma troca de mútuos desejos de uma vida cheia de amor. E trocaram telefones, e-mails, planos para um reencontro em breve.

Despertaram do entorpecimento quando a locutora do aeroporto anunciava o voo de ambos. Os dois partiriam no exato e mesmo horário. Cada um para o seu lado. Cada qual para o seu país, como que sendo devolvidos ao seu devido lugar no mundo. E foram ambos, juntos, invadidos, igualmente, pelo exato e mesmo pensamento no momento em que trocaram aquele caloroso aperto de mão.

E de fato o teriam sido. Felizes. Completamente. E juntos.

Não fosse por um pequeno, mínimo, porém intransponível detalhe.

 

No passaporte de Marina, a data denunciava o dia em que nascera.
No de Iago se lia a data, um tanto quanto apagada.
9/02/1989
9/02/1919
Os orientais eram mesmo muito longevos.
As ocidentais eram sempre muito belas.

10 comentários em “Drink de Flores ou 8+1 – Paula Giannini

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  1. Sabe, querida. Suspeitei que ele era bem mais velho que ela. Não lembro em qual resvalo, detalhe ou revelação. O único impeditivo de que aquele amor frutificasse.

    Gostei muito. Minúcias preciosas de ambos formando um caleidoscópio de sensibilidades; As coincidências e os antagonismos formaram um desenho muito lindo nesta sua renda de almas. O que me sugere: aplausos e admiração. Acho que estou ficando repetitiva, mas a culpa é sua por escrever tão bem.

    Parabéns e nenhum ajuste a fazer, está perfeito. Mil beijos.

    Iolanda

    85 996932052

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  2. Oi, Paula: Que linda história e belamente urdida e “cozinhada”. Gostei particularmente, e como sempre, da sensibilidade. Não desconfiei de nada, apenas percebi que seus caminhos tiveram aquele dia em que caminharam em paralelo para se cruzarem em direções opostas.
    No final, a revelação da diferença de idades, foi a cereja em cima do bolo, um agradável toque que dá sentido a algum non-sense em que vivemos.
    Um conto lindo. Obrigada por partilhar aqui. Beijos.

    Curtido por 1 pessoa

  3. Um drink e tanto, muito bem “batido”. Amei, como sempre deliro com suas receitas. Quero escrever uma, mas tenho medo de que pareça plágio, tornaram-se estilo seu.

    Voltando ao texto: deu um bom trabalho esta diagramação, hein? Mas deram um a significação especial ao conjunto: as vidas correndo em paralelo, um cruzamento circunstancial e o final, surpresa, com a separação confirmada.

    Parabéns, pormenores e descrições perfeitos, certo toque de poesia! Sou sua fã de carteirinha. Beijos! 💖

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  4. Paula, querida, que conto adorável! Em certo momento seu conto me fez lembrar o filme “Encontros e Desencontros” da Sofia Coppola (2004, acabei de ver). Acho até que vou assistir de novo, a mesma atmosfera, um argumento parecido, pelo que me lembro. A história está muito bem amarrada e a leitura flui deliciosamente. E deve ter dado um trabalhão para formatar desse jeito, mas valeu a pena. Fez toda a diferença. Beijos! Adorei!!!

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  5. Olá, Paulinha! As receitas tornaram-se sua marca peculiar, sem dúvida. Aqui nesse drink, vc mistura os ingredientes com sutilezas, deixa o leitor achar que vai ficar bem batido e que as vidas dos personagens irão se misturar, mas no final, a surpresa, não se misturam. Ficou perfeito, esse casamento de conteúdo e formato com a sensibilidade que você dá. Maestria! Parabéns!

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  6. Que conto interessante. Nos faz pensar nos caminhos da vida , em suas voltas e cruzamentos. Não desconfiei hora nenhuma da diferença da idade, e mesmo no fim fiquei imaginando se não seria, tipo, sei lá, um vão no tempo causado pelo voo e na verdade eles estavam em anos diferentes, mas com a mesma idade hahaha. Gostei bastante.
    拥抱

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  7. Mas olha que coisa, fiquei tão envolvida que só me dei conta da diferença de idade quando as datas apareceram… Personagens adoráveis, narração envolvente… Não podia ser de outra forma. Mais dois personagens que me encantaram, adoro isso. Parabéns, Paula.

    Curtido por 1 pessoa

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