Segredos na casa da árvore – Priscila Pereira

Era a primeira vez que Getúlio almoçava fora de casa.

Era aniversário da Laurinha. Ele não sabia que a menina o considerava um de seus amigos, nunca haviam conversado. Na verdade, não conversava com ninguém. Sempre ficava na última carteira, fazia os deveres, prestava atenção nas aulas e aprendia tudo o que podia. Os colegas pareciam não se importar com sua presença. Às vezes, sentia que era invisível. Mas estava tudo bem, pois ele também não se importava com ninguém.

Um dia Laurinha parou ao lado de sua carteira e fez o convite.

— Sábado é meu aniversário. Quero que você vá. Vai ser um almoço só pros meus amigos. 

Primeiro pensou que estavam zoando com ele, olhou ao redor e tudo estava normal. A menina continuava ao seu lado, esperando uma resposta. Olhava pra ele com tanta simpatia, com os olhos tão doces e calmos. Não sabia como, mas concordou. 

E assim, no dia marcado, lá estava ele, segurando nervosamente um diário com estampa de gatinhos, daqueles com cadeado e chave, embrulhado em papel de presente.

A mãe da Laurinha abriu a porta. Estava bonita, com um vestido florido, toda arrumada. Sorria. Um sorriso de verdade.

— Entra, Getúlio, a Laurinha está na sala com os amiguinhos.

Imaginou que ela havia convidado a sala toda, afinal. Deu de ombros. Não tinha importância mesmo. Quando chegou na sala, para sua surpresa, não viu todos os colegas de classe. Só haviam três pessoas. Três. Com ele, quatro. 

— Você chegou! — ela correu até ele, pegou na sua mão e disse para todos. — Agora podemos comer.

Além dele e da aniversariante, tinha o Ângelo, menino tímido, louro e sardento, e Giovana, a menina de trancinhas e óculos fundo de garrafa. Laurinha tinha convidado os esquisitos da sala. Claro. Agora fazia sentido. Estranhamente, não estava bravo ou magoado, sentia-se confortável. 

Deu o presente para Laurinha. Viu alegria genuína em seus olhos quando a menina rasgou o papel e descobriu o diário. 

— Obrigada! Era o que eu mais queria! 

A menina abriu os braços e o abraçou tão forte que alguma coisa que estava quebrada dentro dele se juntou novamente.

Depois de um almoço farto e divertido, sem gritos e pratos arremessados, e os pais da Laurinha sorrindo sempre, ninguém chorando ou machucado, eles foram conversar na casa da árvore, o presente de aniversário que os pais dela haviam dado.

 — Hoje, nós vamos selar uma amizade eterna—  falou a aniversariante, toda posuda e solene. — Estaremos sempre juntos e ajudaremos uns aos outros em tudo. 

— Mas por quê? Por que nós? Não somos seus amigos de verdade — Getúlio queria entender. 

— Vocês nunca me zuaram, nunca me chamaram de baleia, nunca deixaram comida na minha carteira, não me olham com cara de nojo.  

Fazia sentido. Todos concordaram. Não ser inimigos os fazia amigos. Todos deram as mãos e juraram amizade eterna. 

Aquele foi um dia feliz. O primeiro que Getúlio se lembrava. Não sabia que as pessoas podiam ser felizes e tranquilas. Não sabia que uma família pudesse ser carinhosa e normal. Não imaginava por que a mãe da Laurinha não tinha manchas roxas nos olhos, braços e pernas. Não entendia como o pai da menina olhava para esposa com zelo. Tudo era tão diferente de casa. 

Passou a frequentar a casa da árvore com os amigos todos os dias depois da aula. Eles riam, liam histórias de aventura, o livro  de que mais gostavam eram As crônicas de  Nárnia, liam juntos, por horas, mas para Getúlio tinha um significado especial, Aslan era o único ser, misterioso e quase divino, que ele reconhecia que poderia ser real, que  faria a diferença em sua vida, se realmente existisse. Sonhava com Aslan, às vezes. Em um dos sonhos ele devorava seu pai. O sonho não o assustou, sentiu uma paz imensa. 

Brincavam  também com os jogos de tabuleiro e dividiam intimidades. Os segredos de todos eram tão comuns, tão bobos. Se eles soubessem das coisas que escondia, será que ainda seriam seus amigos, entenderiam? Ficava tentado a contar tudo, mas tinha medo. Se não pudesse mais ser amigo deles, o que faria? 

Eles eram diferentes dele. Eram crianças despreocupadas e alegres. Ele carregava uma nuvem escura que trovejava e relampejava continuamente sobre sua cabeça e ombros. Antes de conhecer a família da amiga, antes de ter contato com Giovana e Ângelo, saber sobre a vida deles, suas famílias e segredos bobinhos, acreditava que sua vida e família eram normais. Achava que todos viviam assim. Mas parecia que não. Alguma coisa estava terrivelmente errada na sua casa.

— Eu tenho um problema  —  disse ele, num dia especialmente ruim.

Todos olhavam para ele em expectativa, sentados no tapete redondo, vermelho e cinza da casa da árvore.

— Meu pai bate na minha mãe. Não, ele espanca a minha mãe. Todos os dias. É o que ele faz pra se sentir bem.

Silêncio total. Ele esperava olhares horrorizados, dedos apontados, uma fuga em massa que o deixaria sozinho e sem amigos, de novo. Ao invés disso, recebeu olhares assustados, mas firmes. Ninguém correu. Laurinha segurou sua mão.

— E o que você faz? 

— Nada. Antes de conhecer vocês, eu achava que era normal, que todo mundo vivia assim. Meu pai diz que é assim que uma mulher deve ser tratada, que elas gostam disso. E minha mãe me fez prometer que não contaria nada pra ninguém, nunca, que estava tudo bem, que ela não se importava. Então eu não pensava muito sobre isso, mas agora é diferente. Sua mãe parece tão feliz… E seu pai trata ela tão bem… Eu não sei o que fazer.

Todos olhavam com compaixão, tentando imaginar o que ele passava, mas era muito difícil imaginar uma coisa dessas. 

— Ele te machuca também? — Perguntou Giovana, ajeitando os óculos. Ela sempre fazia isso quando estava nervosa.

— Não… Ele é um ótimo pai, nunca encostou em mim, sempre me leva pra pescar, é carinhoso. Nossa família seria perfeita se ele não batesse na minha mãe. O que eu faço? Não posso continuar assistindo isso e não fazer nada. 

— Você tem que chamar a polícia. Denunciar seu pai —  Ângelo sussurrou, mas com a voz firme. 

Todos balançaram a cabeça em concordância. 

— Mas se eu falar com a polícia, ele vai ser preso, não vai? Eu não quero que ele vá pra cadeia…

— Sua mãe pode morrer, na próxima vez  — disse Laurinha, ainda segurando a mão dele.

— Eu sei… 

Naquele dia, Getúlio foi pra casa com uma verdadeira tempestade na cabeça. No fundo, ele sabia o que tinha que fazer, mas tentava achar outra forma. E se implorasse para o pai parar? Ou pedisse pra mãe fugir com ele? Será que havia outro jeito? 

Chegou em casa e tudo estava quieto. Acendeu as luzes e procurou os pais. Era fim de tarde, deveriam estar por lá. Foi até a porta da cozinha que dava para a garagem e abriu. A mãe estava nua, sentada numa cadeira e com uma toalha na boca. As mãos e os pés amarrados. E o pai, com um semblante sombrio, apagava cigarros acesos em sua pele. Ele viu terror nos olhos escuros da mãe. Também viu o sorriso sádico do pai, que não via nada além da dor, sentia prazer com isso. Não percebeu que o filho estava lá.

Aquele não era o seu pai. Era um monstro. Não era assim que se tratava uma mulher. Nenhuma mulher gostava daquilo. Não podia ficar sem fazer nada.  Fechou a porta sem fazer som algum. Ligou para a polícia.

O pai foi preso em flagrante. A mãe internada no hospital da cidade.  Getúlio ficou com a família de Laurinha até  a recuperação da mãe.

— Vai ficar tudo bem… Você fez o que era certo —  disse Ângelo.  

— Então por que eu me sinto tão mal? Nunca vou esquecer aquela cena, nunca!

Naquela semana, eles terminaram de ler As Crônicas de Nárnia. Era uma história maravilhosa. Num dado momento, quando o livro estava repousado sobre a estante, ele caiu no chão e abriu-se sozinho, com as páginas sendo folheadas numa velocidade incrível. Um brilho intenso saia das folhas. Todos olharam assustados, enquanto viam, incrédulos, que Aslan saia do livro e parava bem no meio deles. 

O leão ocupava quase todo o espaço da casa da árvore, mas eles não estavam com medo. Conheciam Aslan, sabiam que nunca os machucariam.

— Uma criança nunca deveria ter visto o que você viu, nem passado pelo que você passou, Getúlio. Mas eu vou cuidar de você. Seus amigos vão cuidar de você. Sua mãe vai precisar de muito apoio pra conseguir se curar de verdade. Faz muito tempo que ela está machucada. E vai levar muito mais tempo para sarar. Mas eu vou cuidar de vocês. 

— Mas por que não cuidou de nós antes?  — questionou Getúlio.  

— Eu cuidei. Pode não parecer, mas eu estava lá, não deixei ela morrer, não deixei ele tocar em você, não deixei que seu coração se fechasse completamente. Não deixei que a nuvem escura sobre você te dominasse e te tornasse igual a ele. Eu te dei coragem para se abrir com seus amigos e te dei uma oportunidade para agir. Você salvou sua mãe. Estou muito orgulhoso de você. 

Os olhos de Aslan eram tão doces, tão mansos, fluía tanto amor e cuidado deles, que Getúlio o abraçou, tão forte que sentia os pelos do leão fazer cócegas em seu rosto e mãos. As crianças também o abraçaram. Cada uma pensando em suas próprias vidas, em seus segredos bobos e seus dilemas comuns. Todos agradeceram por isso.

Quando deram por si, estavam se abraçando. Aslan havia sumido, ele e a nuvem escura que sempre esteve sobre a cabeça de Getúlio.  

Era o começo de uma nova vida. Ele conseguiria. Aprenderia a viver feliz com uma família de verdade. Bendita a hora que Laurinha convidou os rejeitados e esquisitos para sua festa de aniversário. Dali nasceu uma amizade tão profunda e sincera que mudou a vida de todos.

12 comentários em “Segredos na casa da árvore – Priscila Pereira

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  1. Que lindo conto, Priscila! Mágico e encantador, mas ao mesmo tempo forte e que traz a realidade e a forma como se deve reagir a ela. Adorei mesmo, parece que estou lendo uma história do Pedro Bandeira ou daquela turminha do Marinho, que tinha a Berenice, o Gordo, só que eles um pouco mais crescidinhos… Me lembrou também um pouco o Meu Pé de Laranja Lima, mas no caso o menino também sofria muito com o pai, era o que mais sofria, aliás… E a imagem que encontrou para o conto, li como se o menininho ali fosse o Getúlio. =)

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  2. Um belo conto, Pri. Começa com algo muito real e recorrente (infelizmente), cheio de realismo e vai se transformando em uma fantasia. Gostei muito desta mescla. Nada como algo fantástico para dar uma virada nessa história triste e incluir a esperança de que tudo pode se ajeitar. E o valor da amizade ali reforçado ali no finalzinho… Muito bom. Parabéns.

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  3. Uma história de superação, uma forte crítica social, recursos dramáticos e fantasia que convenceram esta leitora. Um texto fácil de ler e se envolver.

    Estilo e assunto se fundem: a inocência das crianças, suas dúvidas e lógica. Texto bem escrito e estruturado. Gostei das descrições, do vocabulário, das cenas e da amizade entre os “esquisitos”. Interessantes também o ritmo empregado no texto e a leitura fluente.

    Parabéns! Abraços.🌹🌹

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  4. Ahhh que coisa linda este conto!!
    Me identifiquei com os esquisitos 🙂
    e realmente uma turminha assim fica muito unida, que lindo que lindo.
    O contexto social do pai psicopata é bastante pertinente e deu uma camada a mais numa historia que por si só já era uma história de superação.
    Gostei demais!
    Parabéns

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  5. Oi, Pri!
    Lindo, lindo, triste, real e comovente conto.
    A união dos “esquisitos” traz o questionamento: o que há, por trás de cada criança considerada esquisita? Muitas vezes nada, mas geralmente, há muito…, a amizade que traz a força para reagir, a fantasia contada de forma tão bonita, o final, justo e “limpo”, para o malfeitor.
    Acho que seu conto pode ser muito bem utilizado para crianças do ensino fundamental, como alerta…excelente!!
    Bjokas!

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  6. Li a primeira parte do seu conto achando que se tratava de um conto de crianças que se sentem excluídas. Adorei a atitude da Laurinha, de chamar para a sua festa as crianças ignoradas que eram as mesmas que não as tratavam mal. Faz muito sentido isso, mas vc me surpreendeu com uma continuação chocante e inesperada. Seu conto nos trouxe uma realidade desagradável, terrível mesmo. Ainda bem que o menino, com a ajuda dos novos amigos, agiu de forma correta acabando com o horror que acontecia em sua casa. Um conto muito diferente, mesmo.

    Abraços minha querida e tudo de bom com vc e sua família linda.

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  7. Oi Pri,
    Uma história de superação, amizade e coragem.
    Não sei se um filho tem coragem de denunciar o pai assim, mas talvez com a força da amizade verdadeira e sincera, tenha.
    Tua escrita é muito fácil de ler, muito fluida. Parabéns por isso!!!
    Bjos

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  8. Interessante essa mistura de gêneros que acontece no seu conto. Começa como uma história infantil, evolui para a narrativa tensa de uma drama realista e contemporâneo, depois flerta com a fantasia para concluir como uma fábula. Eu adoro essa mistura de gêneros. Acho moderno. Tenho uma amigo que gosta também de misturar — faz contos que misturam FC, com horror, com comédia — costumo chamar os contos dele de “coreanos”. Desde que vi Parasitas, acho que essa mistura é propriedade da dramaturgia/literatura coreana. Eu também gosto bastante de misturar e estou particularmente numa fase de misturar bastante. Sigamos assim, pois. Modernas. Adorei, Priscila. Um beijo.

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  9. Que história mais linda! Eu amei. História super fofa apesar da brutalidade machista descrita. Especialmente porque o final é um final que esperava e, apesar de eu não escrever muitos finais felizes, gosto de ler. Ele me deixou muito feliz. Gostei da diversidade mostrada na história com relação às crianças.
    Parabéns pelo texto.
    Um grande e carinhoso abraço.

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  10. Querida Priscila,

    Forte crítica social. Interessante pensar no ponto de vista infantil para falar de um “assunto de adultos”. Mais que ninguém, as crianças sofrem com o que veem acontecer em torno de si.

    Interessante sua opção por um tipo de literatura voltada justamente ao jovem leitor, para abordar esta temática tão séria. Para esta faixa etária, creio que o conto serviria como um tipo de alerta: ei, você não está só.

    Parabéns.

    Beijos
    Paula Giannini

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  11. Olá, Pri!
    O que parece começar com um conto infantil evolui para um drama onde adultos aterrorizam os pequenos olhos de inocência. A fluidez do seu texto encanta. E depois, ele retorna à fantasia, uma mistura de gêneros interessante. Felizmente, sua história termina com um final feliz, o que é impossível em muitos casos na nossa realidade. Vale a reflexão e leitura! Muito bom!

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  12. É uma triste realidade que acontece todos os dias e em todos os lugares, só que quase nunca há um bom desfecho. Pode até ser que o pai seja preso, mas não fica por muito tempo e depois é bem pior. Pobres crianças que são privadas de amor familiar e infância tranquila… Será esse pai também uma criança que cresceu assistindo a isso? Que bom que teve um final feliz. Bjs ❤

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