RECONCILIAÇÃO (Claudia Roberta Angst)

Enquanto sinto saudades do acaso, surgem imagens que não pertencem a este momento. Uma reconciliação tardia entre dois que nunca se entenderam como um. Mas a história tem sido escrita indiferente da vontade de ambos. O tempo passa lentamente, e as imagens ficam para sempre congeladas. Não tenho nada além de lembranças, experiências entre medos e acertos. E o desejo louco de continuar na sua pele.

O quanto posso me perder neste enredo? O quanto posso querer recordar o que ficou marcado? O quanto posso perdoar meus passos e desejos? Apagaria a trilha sonora da nossa história? Deixaria de suportar os dias que se sucedem em um plano paralelo onde nos encontramos e fomos felizes?

Permito que a narrativa  finde, deixo a vida correr solta… Não prendo a dor no lugar da saudade. O que foi, foi. O que é ainda se constrói.

A distância tem o mesmo efeito da passagem do tempo?

Permanecemos calados nesta viagem como se fosse o suficiente para evitar que o primeiro beijo seja revelado, que a primeira palavra seja dita, que o primeiro desejo se cumpra.

De mãos dadas, seguimos, talvez só como amigos. Não sei. Saberemos, um dia. Como se a cicatrização de tudo o que vivemos fosse o bastante para superar mais uma pausa neste estranho enredo.

21 comentários em “RECONCILIAÇÃO (Claudia Roberta Angst)

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  1. Complicado isso de reatar. Quanto mais se conhece a pessoa mais se entende que certos relacionamento são irreconciliáveis. Quando eu era novinha e morava com meus pais, eu via vantagem em tentar outra vez. Hoje eu tenho minha casa, minha liberdade, minha vida, difícil dividir isso com um homem e perder meu espaço. Imagina fazer isso com um homem da reciclagem. Sei não. Um texto interessante, reflexivo. Um texto que nos leva de imediato para nossos passados. No meu caso, ler seu texto só confirma o que já penso. Beijos.

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    1. Oi Cláudia! Parece que você está falando sobre mim… Perdi a mulher que eu amo por burrice minha. Por medo de perder foi que eu perdi. Trago as lembranças dos inúmeros momentos bons, dos sorrisos e gargalhadas, da felicidade de estarmos juntos, do carinho, da troca, da cumplicidade. Hoje, a saudade dói na alma. A alma e o coração clamam pela volta. A cabeça não afasta as lembranças. A razão, essa nem chega perto de mim.
      Excelente conto!! Parabéns!!!
      Me deu vontade de voltar a escrever!

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      1. Oi, Marcelo, tudo bem?
        Que bom que você se identificou com o meu texto. Que chato que foi por um motivo tão triste. Se reconhece que perdeu um amor por burrice, já conhece um ótimo caminho para não perder o próximo. Porque o amor sempre vem. Quem sabe uma reconciliação?
        O que mais me deixou contente ao ler o seu comentário foi que você ficou com vontade de voltar a escrever. Reconcilie-se com a escrita. Reconcilie-se consigo mesmo. Abraço.

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    2. Iolandinha, também não sou muito adepta da reconciliação, embora ache a ideia interessante. Quando me separei, não me passou pela cabeça, nem mesmo uma única vez, reatar os laços. Acho triste não conseguir considerar a possibilidade de resgatar sentimentos. Mas como disse no texto, o que foi já foi, o que é ainda se constrói.
      Muito obrigada pela leitura e pelo gentil comentário. Beijos.

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  2. Olá, Cláudia!
    As relações humanas são sempre complicadas, o que funciona para um casal pode não funcionar para outro. Só dando o tempo de o sentimento cristalizar-se numa possibilidade ou em um ‘nunca mais’. De tudo, resta seu conto singelo, com uma prosa-poética que admiro há tempos, essa linguagem elegante que nos arrebata. Chamo a atenção para uma frase: ” Não prendo a dor no lugar da saudade. O que foi, foi. O que é ainda se constrói.” Perfeito. Parabéns!

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    1. Oi, Sandra querida. Sim, as relações humanas são mesmo muito complicadas, complexas, densas. Gosto da ideia da reconciliação, do resgate do Bem que existiu entre pessoas. Não sou muito capaz de realizar a ideia, mas admiro quem o faça.
      Muito obrigada pelo seu comentário, sempre pontual e muito generosos. Beijos.

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  3. Não sabemos o que se levou a esse estranho enredo, mas sabemos que há uma tentativa de reconciliação, nem que seja pela amizade, talvez por causa de filhos, quem sabe… Reciclar é se aproveitar o lixo, mas nem sempre o lixo é reciclável… cabe a cada um ponderar sobre o próprio lixo rsrsrsrs. Bjs ❤

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    1. Vanessa, minha lindeza, adorei a sua analogia com o lixo reciclável. Você tem razão, há relacionamentos que não podem ser reciclados, a reconciliação não é possível porque é apenas lixo. Mas há casos em que uma segunda tentativa pode ser a chance de reavaliar posicionamentos. Estou falando isso porque penso assim,mas agir assim é outra história, né? Beijos.

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  4. Um romance, uma separação e uma reconciliação. Senti, também uma metalinguagem no texto: a escrita, os conflitos, o enredo, a desistência e o possível retorno ao exercício?

    Linguagem concisa, metáforas inteligentes; um texto curto, mas que diz muito. Parabéns, Cláudia! Beijos.

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    1. A vida é cheia de relacionamentos, não é mesmo? Começa com a gente mesmo, depois espalha pelos outros, pelo que amamos, pela profissão, etc. E a cada dia precisamos nos reconciliar ou pelo menos tentar.
      Muito obrigada pelo sempre pontual comentário. Sempre traz um novo olhar a minha escrita. Beijos.

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  5. Bem, eu tenho no meu currículo tanto amores absolutamente irreconciliaveis como grandes reconciliações. Sou quase uma especialista no tema. No seu conto percebi uma intenção metalingúistica, como se discorresse sobre a relação do autor com sua obra narrativa. Enfim, um conto curto, lindamente escrito e que se abre a múltiplas possibilidades interpretativass, ou seja, sua prosa brilhando como sempre. Beijos.

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    1. Obrigada pelo seu encantador comentário… Só imaginando o seu currículo de amores…ahahaha. Nem vou comentar sobre o meu. Beijos.

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  6. E lá vem Claudia exibindo toda sua elegância!
    Agora que conheço melhor sua prosa, não canso de admirar esse estilo cadenciado, poético, de palavras colocadas com tanta precisão! Belíssimo!
    Quanto à temática, toca a muitos de nós: não é a vida feita de reconciliações? Quando não com pessoas, com as nossas próprias dores e perdas.
    Adorei! Parabéns!

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    1. Obrigada pelo comentário tão fofo e generoso. Ter meu texto lido e admirado por você me encanta. Sim, estamos sempre tentando nos reconciliar com os outros e conosco o tempo todo. Beijos.

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  7. Não sei. No amor nada se sabe mesmo. Ele tem muitas faces, tem muitas esquinas, muitas curvas, idas e vindas. Amar é um caminho sem volta. Paixão é outro departamento. Amar é uma arte. Exigente. Não sei se é por coragem, ou por burrice, que se ama como se não houvesse amanhã, mas ainda bem que se ama e se amadurece e se entende que o amor é assim, um eterno recomeço, um eterno existir em nós mesmos primeiro, depois, no outro, e com o outro.
    Parabéns pelo texto. Muito reflexivo.
    Beijos e abraços carinhosos.

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    1. Que belo comentário, Evelyn. Adorei a sua reflexão sobre o amor. Muito obrigada pela leitura e pelas palavras tão bem costuradas. Beijos.

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  8. Oi, Claudinha!

    Sempre gosto do que vc escreve. Vejo aqui que a reconciliação é mais com a pessoa narradora, né? Acho que também me sinto assim, no momento, me reconciliando comigo mesma pelos meus fantasmas e frustrações. Foi um texto que encontrou meu eu e falou com ele. Enfim, gostei do “O que foi, foi. O que é ainda se constrói.” É simples, mas diz muito e é otimista também.

    Parabéns! Beijo 🙂

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    1. Sem o otimismo, como continuar a existir? Muito obrigada pelo seu gentil comentário, Maria. Sua interpretação é uma das possibilidades que mais aprecio. Beijos.

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  9. Querida Cláudia,
    Li seu texto há um tempinho, mas, demorei para chegar aqui e comentar.
    Como é bom ler o texto de cada uma de vocês.
    Adorei tudo aqui: tema, o modo como você o colocou e, até, o resultado que conseguiu como autora, causando interpretações diversas em seus leitores.
    Viajei aqui em possibilidades insólitas destes dois amantes…
    Beijos
    Paula Giannini

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