Match, crush & pizza – Elisa Ribeiro

Local: Quarto do filho jovem

(Mãe e filho sentados na cama)


FILHO: Mãe, agora não. Eu tô cansado. Isso aí é demorado.

MÃE: Nada disso. Eu já baixei o Tinder (pronunciando “tindow”).

FILHO: Mãe, é Tinder (com pronúncia corretíssima).

MÃE: Então, foi o que eu disse.

FILHO: Ok. E aí? (debruçando-se sobre o celular da mãe)

MÃE: Está pedindo o meu telefone? Eu coloco? Não é perigoso?

FILHO: Mãe, tem que colocar. Ele vai te enviar um código pra conferir se você é você mesma.

MÃE: Como assim? Se eu sou eu mesma?

FILHO: (impaciente) Mãe, é igual quando você faz qualquer cadastro na internet. Chama dupla autenticação, ligada?

MÃE: Hum… É isso mesmo. Agora pedindo um código. Ah… Chegou um código aqui. É esse código que eu tenho de digitar?

FILHO: Mãe, você é lerda demais… Não sei como você se vira no trabalho.

MÃE: No trabalho é outra história. Agora pedindo o meu nome… Coloco o meu nome verdadeiro?

FILHO: (suspira) Melhor não. Inventa um nick.

MÃE: Nick? O que é nick?

FILHO: Nickname, mãe. Um apelido.

MÃE: Mas tem que ser estrangeiro? Não pode ser brasileiro, não? Pois se eu quero encontrar um namorado brasileiro…

FILHO: Caraca, mãe, você já foi mais inteligente. Coloca, por exemplo, Lu em vez de Luciana, que é teu nome real.

MÃE: Ah… … Vou colocar Luci.

FILHO: Boa!

MÃE: Agora pedindo a data de nascimento. Vou roubar uns… cinco anos.

FILHO: Mãe, você perdendo o respeito. Que história é esse de mentir? Você não me educou assim.

MÃE: Ah, filho, todo mundo deve mentir nesse aplicativo.

FILHO: Mãe, você não é todo mundo. Mentir idade é falsidade ideológica, ligada?

MÃE: bom, bom… Agora pedindo uma foto.

FILHO: Escolhe uma aí na tua galeria. Só uma, pra terminar logo esse cadastro.   Daí você começa a se distrair com os caras de bosta que vão aparecer, mas lá no seu quarto, porque eu preciso terminar de ver o jogo.

MÃE: Não, não, meu filho. Vou ficar aqui e você vai me ensinar direitinho a usar.
Eu pedi uma pizza para pagar os seus serviços. Gostou? Hum, pode dar uma risadinha. Deve estar chegando.

FILHO: (com um sorriso sem graça) bom, mãe. Olha aqui, se você não gostar do cara, você move pra esquerda; se gostar, move pra direita. Entendeu?

MÃE: Entendi. Só isso? É fácil. Esse aqui não gostei, movo pra esquerda. Nem esse, pra esquerda também, nem esse, vixe, horrível! Esse aqui…, mais ou menos… Não, não, cara de cafajeste…

FILHO: Isso, mãe, vai passando. É assim mesmo, a maioria não presta.

MÃE: (assustada) Filho, esse aqui é você?!

FILHO: Deixa ver. Sou eu, sim.

MÃE: “Sou eu”? Como assim? Você anda procurando mulher com idade pra ser sua mãe em aplicativo de encontro no celular?

FILHO: Ué! Qual é o problema de eu gostar de mulher madura? As novinhas não têm nada na cabeça, mãe.

MÃE: Ah, filho, sei lá. Deu uma sensação estranha. Mas, pensando bem, não tem nada demais, né? É bom até… Eu acho. (pensativa) Experiência, não é mesmo?

FILHO: Eita, mãe! (irônico) Você clicou coração! Aí não, é pecado.

MÃE: Ai, filho, valha-me Deus! Foi coração de amor de mãe. Como é que eu desfaço?

FILHO: (sorrindo) Se preocupa não, mãe. Ninguém vai saber e eu não vou te dar match.

MÃE: Match?O que é match, filho?

FILHO: É uma espécie de pré-crush.

MÃE: E o que é pré-crush?

FILHO: (entediado) Mãe, o nome já diz, é o que vem antes do crush.

(O interfone toca)

MÃE: Atende lá, filho, Deve ser a pizza.

(O filho vai atender o interfone na cozinha)

MÃE: Nossa! Que homem lindo! E tão sexy… A dez metros de distância? Como assim? Só pode ser algum vizinho aqui do prédio. Mas como eu nunca reparei nessa belezura? (faz um movimento brusco para a direita com a mão) Ah… Deu match! Não acredito…

(Mãe começa a teclar)

GUI: “Oi, Luci.”

MÃE: “Oi, Gui. Parece que somos vizinhos.”

GUI: “Não. Estou só de passagem.”

MÃE: “Visitando alguém?”

GUI: “Isso.”

MÃE: “Coincidência.”

GUI: “Coincidências não existem.”

MÃE: “E essa visita, vai demorar?”

GUI: “Uns cinco minutinhos. Já, já vou embora.”

MÃE: “E será que a gente podia trocar uma palavrinha antes de você ir?”

GUI: “Ah, minha linda, que pena. Não vai dar. Tenho que sair voado.”

MÃE: “Entendo.”

(Filho volta da cozinha)

FILHO: Mãe, o cara da pizza tá subindo.

MÃE: Ah… … Vai arrumando a mesa, deixa que eu atendo o sujeito.

(A campainha toca. A mãe atende a porta)

MÃE: Boa noite.

ENTREGADOR: Boa noite.

MÃE: (surpresa) Eu conheço o senhor de algum lugar?

ENTREGADOR: (um sorriso safado nos lábios) A senhora costuma pedir pizza aos sábados?

MÃE: Às vezes…

ENTREGADOR: E usar o Tinder para arranjar namorado?

(cai o cartão de crédito)

(*) esse texto integra o livro O condomínio no Divã, publicado em maio/2021, pela editora Verlidelas.

16 comentários em “Match, crush & pizza – Elisa Ribeiro

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  1. Modernidades. Meu filho já usou o tinder e arrumou uma moça lá, mas não durou muito. Eu usei por cinco minutos mas era cada monstro que eu desisti apavorada. Seu texto traz um diálogo que também serviria há 15 anos, se a mãe estivesse pedindo para o filho explicar um orkut, um messenger. Essa troca de papéis, onde são os filhos que ensinam aos pais virou uma constante desde que a tecnologia invadiu a comunicação e começou a fazer parte de nosso dia a dia.

    Muito legal, o seu texto. Parabéns.

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    1. Eu ia colocar o pai da personagem dando match com ela também noTinder, rs. Mas o texto iria ficar fora do nosso tamanho padrão. Isso que vc diz de que o texto caberia na época do orkut e tal, acho que caberia em qualquer cenário de inovação tecnológica nas comunicações. Beijos, querida. Obrigada pela leitura

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    1. Obrigada, querida, pela leitura. A ideia do livro é essa. Textos leves, temas contemporâneos, na maior parte das vezes querendo fazer rir. Um beijo

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    1. O livro é todo assim nessa pegada bem leve, com os diálogos bem quebradinhos. Inspirado na dramaturgia espanhola. Foi divertido escrever. Já estou com saudade. Obrigada pela leitura. Beijos

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  2. Olá!

    Bonitinho e divertido o conto/roteiro. Vi tudo como se estivesse no quarto junto com eles. Do modo que vc escreveu ficou dinâmico e tudo corre sem qualquer entrave (o que é muito bom). Achei a sacada fial um ótimo fechamento.

    Vou torcer por eles 😀

    Parabéns!

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  3. Texto muito atual e divertido. Ainda bem que nunca precisei pedir ajuda da minha filha para essas coisas … Agora já faz quase cinco anos que não me aventuro mais nesses aplicativos. Adorei a narrativa, o diálogo ágil e a surpresinha no final. Parabéns.

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  4. Ah…. me diverti! Eu me identifiquei com a mãe pedindo ajuda nos aplicativos. Eita mundo tecnológico difícil esse. Tudo bem que vamos aprendendo, mas é cada definição, é cada gíria estranha. Não sei. Tô na marcha lenta ainda e com medo de engatar a ré.
    Abraços carinhosos.

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    1. Vou te contar que entrei no Tinder pra escrever o conto, rs. Saber pra qual lado que passa o dedo pra dar o tal do match. Obrigada pela sua leitura e pelo comentário tão gentil. Beijos.

      Curtido por 1 pessoa

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