Experimento poético 3 – Paula Giannini


a fera te lambe

e a graça te morde a carne

que ao verme sacia


perdoem-me o mal espanhol

Te mordo.

E no naco de tecido arrancado, um oco. O nada para alívio meu. Mas, não… Segundos depois, o rosa tímido a brotar em gotas, o rubro caudaloso formando poça em nosso chão. E só então nossos olhos se cruzam.

Só então…

O meu, o seu, o da incredulidade.

Doeu.

Em mim.

Em você.

Quisera ser eu um cãozinho a correr pela casa. Quisera ter eu o petisco orgulhoso exibido em travessuras entre os dentes saciados. Mas, não. O que solto no chão é um pedaço da sua carne.

Tecido seu.  

Me olha.

Te olho.

E no relance desta noite, eu fujo. Não de você. Não.

Corro de mim.

De mim…

E se me esquivo do medo de me ver espelho… Luz do avesso. Pai do nada. Se me encolho, reflexo, no pavor da visão destes olhos de criar o nada.  es que en la noche se escribe una danza donde se hace o non ser.


Imagem – A cabeça da Medusa” (1612), Pieter Paul Rubens

Este texto encerra o Experimento Poético.

Para ler os anteriores:

Experimento Poético 1

Experimento poético 2

16 comentários em “Experimento poético 3 – Paula Giannini

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  1. Realmente, o terceiro complementa os dois primeiros. Mas não o vejo como um encerramento. Nesta saga visceral ainda caberiam muitos atos. Vejo muita entrega e entranhas em sua nova abordagem escrita. Sair do lugar de conforto nos faz descobrir outros eu, outros tus, outros nós. Parabéns pela beleza assustadora e crua. Um beijo.

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    1. Querida Gisele, obrigada pelo carinho e por ter feito essa jornada de aprendizado comigo.
      Beijos
      Paula Giannini

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  2. O reflexo no espelho nos revela, espanta e morde. O “ser ou não ser” é mais do que uma questão quando se confronta a própria humanidade com seus ecos sombrios.
    Versos impactantes!

    Curtido por 1 pessoa

  3. Ó, criatura! Esses versos tão densos, tão prenúncio de essência de ser, tão próximos do que se é… Eu amei! E que imagem escolheu. Medusa… Eterna incompreendida entre os mortais.
    Parabéns!
    Abraços carinhosos.

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    1. Evelyn querida, obrigada por palavras tão generosas. Sim, estava pensando aqui hoje sobre o mito da Medusa e outro que encontrei na mitologia Guarani que se assemelha a esta figura tão poderosa. Obrigada por sua leitura.
      Beijos
      Paula Giannini

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  4. Nossa, Paula. Já tinha lido meio rapidamente. Li agora, duas vezes, em voz alta e cá estou impactada. Meu bem, você manda bem demais na poesia. Investe que você arrasa. Aliás, em tudo. Beijos, amada.

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    1. Querida Elisa,
      Obrigada pelo carinho. Vindo de minha poeta preferida e mais exigente, fico muito feliz.
      Beijos
      Paula Giannini

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  5. oi, Paula!! aqui é a Kinda.. voltado a ler graças a Deus!
    Sensacional!!
    não li os outros experimentos poéticos ainda… eles se complementam?
    Com a visão pura e simples desta Medusa louca (kkk) já digo que é compreensível e bastante forte e verdadeiro pq não? uma abordagem intimista cruel! Maravilhosa!

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